10 de março 2018

10 de março 2018
Chamados, Amados e guardados

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Entre o mudar e o repetir


Entre o Mudar e o Repetir: A Dialética Sagrada da Existência

Há momentos na existência em que a alma se vê suspensa entre dois abismos: o de mudar, com seus ventos imprevisíveis, e o de repetir, com seus ciclos silenciosos que se fecham sobre si mesmos. Em ambos há risco; em ambos há revelação. Pois a vida, à semelhança das Escrituras, alterna entre o chamado ao arrependimento — uma metamorfose da consciência — e o convite à perseverança — a repetição sagrada do que é eterno.


Mudar é o gesto profético de quem ousa romper com os ídolos interiores. É transitar do caos ao cosmos, como quem deixa para trás o Egito que o aprisiona, mesmo quando o deserto amedronta. Filosoficamente, mudar é a consciência que desperta; teologicamente, é a graça que convoca; poeticamente, é o verbo que decide nascer mais uma vez. O ato de mudar é sempre um êxodo interior, uma saída do “mesmo” para o “ainda não”, uma travessia que exige coragem para enfrentar o desconhecido, sabendo que a própria incerteza é também um instrumento pedagógico divino. O espírito humano amadurece não apenas pelo que conquista, mas pelo que ousa deixar para trás.


Mas repetir, entretanto, não é estagnação, mas reverência. É retornar à fonte para beber da mesma água, não por falta de alternativas, mas porque certas águas não perdem o seu frescor. A repetição sagrada é o que mantém aceso o lume da fé: orações que se repetem, versos que se reerguem, passos que são dados outra vez porque sustentam aquilo que não pode ser esquecido. O acadêmico chamaria isso de constância paradigmática; o poeta, de fidelidade do coração; o teólogo, de liturgia da alma. A repetição é a moldura da eternidade na vida humana: o que se repete porque é santo, o que se repete porque sustenta, o que se repete porque sem isso o coração vagaria sem alicerces. Há rituais — silenciosos ou visíveis — que, repetidos, mantêm a alma íntegra.


E assim, entre o impulso para mudar e a necessidade de repetir, ergue-se o ser humano: criatura tensionada entre o contingente e o eterno, entre o instante que passa e o significado que permanece. Somos seres limítrofes, caminhando na fronteira entre o tempo e o sagrado. Se mudamos, é porque Deus sopra novidade; se repetimos, é porque Deus estabelece fundamentos que não devem ser quebrados.


Há dias em que o Espírito sussurra: “Vai e muda, porque teu presente já não comporta tua vocação.” Mas há outros em que Ele ordena: “Permanece, repete, insiste — porque aquilo que é eterno nunca envelhece.” Assim, cada escolha se transforma num pequeno altar onde a vontade humana e a revelação divina se encontram, dialogam e se corrigem mutuamente. O discernimento espiritual, nesse sentido, é a ciência sutil de escutar o tempo: o tempo de Deus, que por vezes se revela como kairos — a hora certa — e por vezes como chronos — a paciência que molda o caráter.


A sabedoria, portanto, não está em escolher apenas um dos caminhos, mas em compreender, com temor e tremor, que a maturidade espiritual é a arte de reconhecer quando mudar é obediência e quando repetir é fidelidade. Quem só muda se perde da raiz; quem só repete sufoca o próprio crescimento. Mas aquele que sabe alternar — guiado pela Palavra, moldado pela oração, iluminado pela consciência — descobre que a vida se torna uma sinfonia onde mudança e repetição não se opõem, mas se entrelaçam como notas complementares na música divina.


Pois, no fim, o ser humano encontra paz quando entende que há transformações que são mandamentos e há repetições que são sacramentos. E assim a alma aprende a caminhar: mudando para obedecer ao chamado, repetindo para guardar a essência — e vivendo cada dia como quem respira entre dois mundos: o do que pode ser alterado e o do que jamais deve ser traído.

Pense nisso!

Cezar Junior Gomes 

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