Nadabe e Abiú: A Ontologia do Altar e a Incompatibilidade entre o Santo e o Profano
O relato de Levítico 10:1–3 não é um simples registro histórico de punição sacerdotal, mas uma teofania judicial, na qual Deus revela a natureza inviolável da santidade cultual. Nadabe e Abiú, filhos de Arão, não pecaram por ignorância, tampouco por inexperiência litúrgica. Eram sacerdotes legitimamente investidos, conhecedores da Lei, participantes diretos da consagração do altar (Lv 8–9). O seu erro não foi técnico, mas ontológico e ético: ofereceram diante do Senhor um fogo que não procedia de Sua vontade revelada.
O texto sagrado afirma que eles trouxeram “fogo estranho” (’ēš zārāh), isto é, um elemento cúltico não autorizado, não prescrito, não sancionado pela Palavra divina (Lv 10:1). Em termos teológicos, trata-se de uma ruptura entre revelação e prática, entre o mandamento e a ação humana. A transgressão não consistiu no desejo de cultuar, mas na pretensão de redefinir os termos do culto.
Aqui reside o cerne do problema: queriam servir a Deus sem submeter-se integralmente à Sua soberania. Buscaram o privilégio do altar, mas rejeitaram o peso da obediência. Tocaram o sagrado como se fosse comum, dissolvendo a fronteira entre o santo (qōdesh) e o profano (ḥōl), fronteira essa que sustenta toda a estrutura da teologia levítica (Lv 10:10).
A irreverência, neste contexto, não é ausência de fé, mas excesso de autonomia. É a tentativa humana de instrumentalizar o divino, de moldar a adoração segundo impulsos subjetivos, emoções voláteis ou conveniências pessoais. Nadabe e Abiú ilustram o perigo de uma espiritualidade que confunde criatividade com obediência, espontaneidade com submissão. O culto torna-se, então, não uma resposta à revelação, mas uma projeção do ego religioso.
O fogo que os consumiu não foi mero juízo punitivo; O mesmo fogo que anteriormente descera do céu para consumir o sacrifício aceitável (Lv 9:24) agora consome os sacerdotes que ousaram profanar o altar. Deus declara, com isso, um princípio eterno:
“Serei santificado naqueles que se chegarem a mim, e serei glorificado diante de todo o povo” (Lv 10:3).
Este episódio ecoa ao longo de toda a Escritura. O Deus que não aceita fogo estranho é o mesmo que rejeita o sacrifício sem obediência (1Sm 15:22), a adoração divorciada da justiça (Is 1:11–17), e o culto que honra com os lábios, mas cujo coração está distante (Mt 15:8). No Novo Testamento, o princípio permanece inalterado:
“O nosso Deus é fogo consumidor” (Hb 12:29).
A queda de Nadabe e Abiú é, portanto, um alerta perene à comunidade da fé. Deus não rejeita pessoas quebrantadas, mas rejeita ofertas rebeldes. Ele não despreza a fragilidade humana, mas condena a arrogância espiritual que tenta domesticar o sagrado. O altar não é espaço de experimentação subjetiva, mas de conformidade objetiva à vontade revelada.
Em termos filosóficos, o texto nos confronta com a tensão entre liberdade e limite, entre intenção e norma. Toda adoração autêntica exige a morte do “eu soberano” para que Deus permaneça absolutamente Deus. Onde o homem tenta governar o altar, o altar deixa de ser santo.
O altar permanece o mesmo. A exigência também.
Só permanece de pé aquele que se aproxima com temor, verdade e submissão, pois o santo jamais se mistura com o profano, e o Deus que habita o fogo não negocia Sua glória (Is 42:8).
Pense nisso!
Cezar Junior Gomes
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