Às vezes, a presença contínua produz um paradoxo silencioso: quanto mais constante, menos perceptível. Aquilo que não falha, que não oscila, que não ameaça ausência, passa a ser naturalizado. A presença, quando não se retira, deixa de ser celebrada; quando não surpreende, torna-se invisível. Esse fenômeno não é meramente psicológico ou social, mas carrega densidade ontológica, ética e teológica.
Na filosofia clássica, a percepção é frequentemente condicionada pela ruptura. Aristóteles já compreendia que o movimento é percebido pela alteração, e não pela permanência. O que permanece estável escapa ao espanto. Assim, a constância, embora seja virtude, sofre o risco de ser confundida com irrelevância. A fidelidade cotidiana não produz ruído; ela sustenta o mundo em silêncio. Por isso, o que sustenta raramente recebe o louvor que o extraordinário recebe.
No campo teológico, essa dinâmica alcança profundidade ainda maior. A Escritura testemunha um Deus cuja presença é permanente e, justamente por isso, frequentemente ignorada. “Eu sou convosco todos os dias” (Mt 28,20) não é uma promessa espetacular, mas uma afirmação de continuidade. O Deus que não se ausenta corre o risco de ser esquecido, não por ausência de glória, mas por excesso de proximidade. A imanência divina, quando não acompanhada de reverência, transforma-se em banalidade religiosa.
A tradição patrística reconheceu esse perigo. Agostinho lamentava ter buscado Deus longe, quando Ele estava mais próximo do que sua própria interioridade. A presença que habita, que sustenta, que não se retira, não se impõe ao olhar distraído. Exige atenção, não espetáculo. Exige contemplação, não urgência. Onde tudo é garantido, a gratidão adormece.
Do ponto de vista ético, essa invisibilização da presença constante revela uma crise de reconhecimento. Pais fiéis, líderes responsáveis, servos comprometidos, pastores presentes — todos correm o risco de serem percebidos apenas quando falham ou se ausentam. A cultura da exceção valoriza o episódico e despreza o perseverante. O compromisso duradouro não impressiona; ele apenas mantém a ordem do mundo.
Teologicamente, isso revela uma distorção no modo de valorar a graça. A graça contínua é tomada como direito, não como dom. Israel acostumou-se ao maná até desprezá-lo; a presença sustentadora de Deus tornou-se comum demais para ser honrada. Assim, o invisível não é o ausente, mas o excessivamente presente.
Há, portanto, uma espiritualidade da constância que precisa ser resgatada. A presença que não abandona é, em si, um milagre silencioso. Ela não grita, não compete, não se autopromove. Ela permanece. E permanecer, em um mundo que vive de rupturas, é um ato profundamente teológico.
Ser invisível por estar sempre presente não é sinal de inutilidade, mas de fidelidade. É o preço pago por quem sustenta sem exigir reconhecimento. Contudo, a maturidade espiritual e intelectual consiste em reaprender a ver o que nunca deixou de estar ali. Pois aquilo que verdadeiramente importa não é o que aparece de vez em quando, mas o que permanece quando todos os outros se vão.
Pense nisso!
Cezar Junior Gomes
No fim, a verdadeira presença não busca ser notada; ela cumpre sua vocação ontológica de sustentar. E somente os olhos educados pela contemplação, pela teologia e pela filosofia do ser são capazes de perceber que o invisível, muitas vezes, é apenas o eterno que se recusou a ir embora.
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