A Tentação de Julgar o Lugar do Outro e a Negligência do Próprio Chamado
Uma das marcas mais persistentes da condição humana decaída é a facilidade com que o indivíduo discerne o erro alheio enquanto permanece cego às próprias responsabilidades. A máxima popular — “todo mundo sabe o que fazer no lugar do outro, mas não faz no seu próprio lugar” — encontra eco direto na antropologia bíblica e na crítica profética das Escrituras.
O apóstolo Paulo aborda esse fenômeno com precisão em Romanos 2.1:
“Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas; pois, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas.”
O julgamento do outro, longe de ser mero exercício moral, torna-se frequentemente um mecanismo de evasão espiritual. Ao apontar o desvio alheio, o sujeito suspende momentaneamente o confronto com sua própria vocação, responsabilidade e obediência. Trata-se de uma espiritualidade deslocada, na qual a consciência encontra conforto não na fidelidade, mas na comparação.
Biblicamente, esse desvio nasce de uma inversão da ordem do chamado. Desde Gênesis, Deus não convoca o ser humano a administrar a vida do outro, mas a guardar e cultivar o espaço que lhe foi confiado (Gn 2.15). O pecado, contudo, produz o efeito oposto: Adão terceiriza sua culpa, Eva desloca sua responsabilidade, e a serpente permanece como justificativa externa. O juízo sobre o outro passa a ser mais confortável do que a conversão pessoal.
Jesus confronta esse padrão com contundência no Sermão do Monte:
“Por que vês o argueiro no olho do teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio olho?” (Mt 7.3).
A imagem é deliberadamente hiperbólica para expor a desproporção moral entre a crítica oferecida e a vida praticada. O problema não é a percepção do erro, mas a ausência de autoconsciência espiritual. A crítica sem autorreforma transforma a verdade em instrumento de vaidade religiosa.
Na tradição teológica, esse comportamento é compreendido como fruto da curvatura do eu sobre si mesmo (incurvatus in se), conceito clássico na teologia cristã. O indivíduo usa até mesmo a moral e a doutrina como meios de autopreservação, evitando o peso da obediência concreta. Assim, saber o que o outro deveria fazer torna-se mais fácil do que cumprir aquilo que Deus exige no próprio lugar.
No contexto eclesiástico, essa lógica produz líderes severos e discípulos frágeis; igrejas cheias de diagnósticos e vazias de arrependimento. A Escritura, porém, insiste numa ética da responsabilidade pessoal:
“Cada um examinará a sua própria obra” (Gl 6.4).
O chamado bíblico não é para a omissão crítica, mas para a fidelidade situada. Deus não julgará o que o outro deveria ter feito, mas o que cada um fez com o que lhe foi confiado (Mt 25.14–30). A maturidade espiritual começa quando o crente troca o conforto da opinião pelo custo da obediência.
Portanto, a verdadeira espiritualidade não se manifesta na capacidade de corrigir trajetórias alheias, mas na disposição de alinhar a própria vida à vontade de Deus. O lugar do outro pode até ser visível; o próprio lugar, contudo, é onde a cruz precisa ser tomada diariamente.
Pense nisso !
Cezar Jr Gomes
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