10 de março 2018

10 de março 2018
Chamados, Amados e guardados

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

EU TENHO CHAMADO. O HOMEM QUE ME PERSEGUE.

 Eu tenho chamado…

o homem que me persegue…

Não é a ausência de talento que denuncia certos homens, mas a economia moral de suas ações. Eles não servem por convicção; servem por visibilidade. Sua ética é performática, não ontológica. Agem quando o olhar legitima, retraem-se quando a cena se esvazia. A virtude, para eles, não é um hábito do ser, mas um instrumento de barganha simbólica.

A Escritura já nomeou esse fenômeno antes que a psicologia o classificasse. Jesus advertiu sobre os que “fazem todas as suas obras para serem vistos pelos homens” (Mt 23.5). Não se trata de serviço, mas de encenação; não de vocação, mas de narcisismo espiritual. Na linguagem clínica, poderíamos falar de um eu inflacionado que necessita de espelhos institucionais para sustentar sua identidade. Onde não há reconhecimento, instala-se o boicote silencioso; onde não há cargo, nasce a retaliação indireta.

O filósofo diria que tal sujeito vive sob a tirania do aparecer. Hannah Arendt já alertava que, quando o agir se submete ao aplauso, perde-se a substância do bem. O bem, quando condicionado à recompensa, deixa de ser bem e torna-se cálculo. Kant chamaria isso de heteronomia moral: a ação não procede do dever, mas do interesse. E todo interesse travestido de virtude acaba por trair-se.

Na psicologia das relações de poder, esse comportamento revela um mecanismo de coerção passiva: “sirvo aos outros para ferir você”. Não é generosidade; é mensagem cifrada. Não é zelo pelo Reino; é disputa por centralidade. Trata-se de um afeto instrumentalizado, onde o serviço é usado como linguagem de pressão: reconheça-me, ou serei contra você sem jamais me declarar.

A Bíblia, contudo, expõe a falácia desse jogo. Saul oferecia sacrifícios, mas rejeitava a obediência; e ouviu que “obedecer é melhor do que sacrificar” (1Sm 15.22). O sacrifício que exige palco não sobe como aroma; sobe como fumaça. O chamado de Deus não nasce da mão imposta por homens, nem se sustenta por títulos concedidos. Ele antecede cargos, sobrevive à rejeição e não negocia sua fidelidade.

Por isso, eu tenho chamado — e o homem que me persegue confirma esse chamado sem perceber. Sua hostilidade é testemunho; sua seletividade é confissão. Pois quem só serve quando é visto revela que nunca entendeu o princípio do servo: o verdadeiro serviço acontece onde ninguém aplaude, e a obediência permanece mesmo quando o nome não é citado.

No fim, a liderança não é ferida pela ausência dos oportunistas, mas purificada. E o Reino não é construído por quem exige reconhecimento, mas por aqueles que, como diz o apóstolo, “não fazem nada por vanglória, mas por humildade” (Fp 2.3). Todo o resto é ruído — sofisticado, estratégico, mas vazio de substância eterna.

PENSE NISSO!


CEZAR JR GOMES

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