“Não apagueis o Espírito”: diagnóstico do declínio pentecostal no Brasil aponta secularismo, institucionalismo e afrouxamento doutrinário
- Publicado
por Heleno Farias
- em 10/07/2026
- as 13:48
Pastor Caramuru Afonso
Francisco. Foto: AD Belém
O pentecostalismo brasileiro,
que começou como um “movimento periférico” e cresceu vertiginosamente graças ao
poder do Espírito Santo e ao comprometimento de seus líderes fundadores, dá
sinais preocupantes de arrefecimento e esvaziamento. É o que aponta
uma série de
artigos publicados no site Raízes Pentecostais, de autoria do
pastor Caramuru Afonso, com base em uma análise do pastor e
comentarista da CPAD José Gonçalves.
O diagnóstico é direto e
contundente:
“O
pentecostalismo começou como um movimento periférico que, graças ao poder do
Espírito Santo e ao forte comprometimento de seus líderes fundadores,
conquistou relevância, reconhecimento e prestígio. Contudo, aquilo que foi
conquistado por força de intervenções sobrenaturais e muitas lágrimas
derramadas dá sinais de arrefecimento e esvaziamento.”
Para José Gonçalves, na base
desse esfriamento estão três fatores principais: o secularismo e
consumismo, que transformaram igrejas em casas de shows e entretenimento;
o institucionalismo, que fomentou disputas por espaço e poder,
transformando algumas convenções em “verdadeiras prefeituras”; e o afrouxamento
ético e doutrinário, que mundanizou muitas igrejas e as converteu em meros
clubes sociais.
“Fica o
alerta bíblico: ‘Não apagueis o Espírito’ (1 Tessalonicenses 5.19).”
Um movimento periférico que se perdeu no centro
A série de artigos, dividida em
seis partes, faz uma análise detalhada de cada um desses fatores. O pastor
Caramuru Afonso destaca que o avivamento pentecostal foi, por natureza,
um movimento periférico — ou seja, nasceu nas camadas mais
simples da população, entre os desvalidos e despossuídos, e não no “centro da
sociedade” ou entre as lideranças eclesiásticas estabelecidas.
“O
avivamento pentecostal não ocorreu no ‘centro da sociedade’, não foi um
movimento que tenha acontecido a partir das ‘lideranças eclesiásticas’, mas
algo que se iniciou no meio da população mais simples.”
Essa característica “periférica”
foi uma ação do Espírito Santo, não dos homens, seguindo o modelo centrífugo
determinado por Jesus: “sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém
como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra” (Atos 1.8).
No entanto, o pentecostalismo,
ao conquistar relevância, reconhecimento e prestígio, passou a querer fazer
parte do “centro da sociedade” e a compartilhar do “centro do poder” —
um movimento que, segundo os autores, é incompatível com sua natureza
periférica.
“O
pentecostalismo não pode, jamais, abandonar a periferia, não pode querer fazer
parte do ‘centro da sociedade’, não pode almejar compartilhar do ‘centro do
poder’, mas, sim, permanecer na ‘periferia’, não se comprometendo com o mundo
nem com as suas estruturas sócio-econômico-políticas, que estão todas no
maligno.”
Secularismo: o foco nas coisas desta vida
O secularismo —
definido como a “exclusão, rejeição ou indiferença à religião e a ponderações
teológicas” — é apontado como o primeiro grande fator de declínio. Trata-se da
adoção de uma visão que suprime a eternidade e passa a considerar apenas as
coisas materiais.
“A partir
do momento que passamos a ter como foco, como objetivo, as coisas desta vida,
não mais servir a Jesus, estar à mesa com Ele e adorá-l’O, como fez a família
de Betânia, mas, sim, querer tirar vantagens materiais da obra de Deus, como,
naquela mesma oportunidade, fez Judas Iscariotes, passamos a dar lugar ao diabo
e a nos afastar da presença de Deus.”
O secularismo explica a entrada
de doutrinas como a confissão positiva, a teologia da
prosperidade e até a teologia da libertação —
precisamente porque valorizam as coisas terrenas.
“As pessoas
já não mais se esforçam para a sua salvação, para o seu preparo para a
eternidade, concentrando suas atenções no bem-estar material, no sucesso
profissional, na melhoria das condições de vida, passando a exigir das igrejas
locais atitudes que lhes proporcionem este conforto puramente terreno.”
O resultado? O culto deixa de
ser um “sacrifício que se oferece a Deus” para se tornar “um instante de
distração, de entretenimento, de confraternização, um ‘encontro social’, onde
um grupo de pessoas vem se ‘divertir’, ‘esquecer dos problemas’, ‘ouvir uma boa
música e uma boa reflexão'”.
Consumismo: a raiz de todos os males
O consumismo —
o ato de consumir e comprar em demasia — é apontado como uma demonstração de
uma mentalidade voltada para as coisas desta vida, onde prevalecem os instintos
e a vaidade.
O pastor Aldery Nelson Rocha,
citado no artigo, explica como o consumismo opera na alma humana:
“Os olhos
veem um artigo que a mente está procurando há dias. A mente tem vontade de
comprar. A mente sabe que, no momento, ainda não tem condições de comprar. O
intelecto é mais racional e avisa que não pode. O sentimento entristece-se,
porque, na festa, o ego (que habita na mente) será envergonhado porque seu
status é conhecido vaidosamente como ‘de poder aquisitivo’. A vaidade sente-se
mal e entra pela mente. Sem importar-se se é possível pagar ou não, a alma
compra.”
Essa lógica consumista, quando
aplicada à vida eclesiástica, transforma a igreja em um negócio e os fiéis em
clientes — e leva ao “apagamento do Espírito”.
Afrouxamento ético e doutrinário: a complacência com o pecado
Quando a igreja começa a buscar
atração com base em elementos mundanos, inicia-se uma complacência com
o pecado e uma alteração gradual da conduta e do comportamento.
“A começar
dos bons costumes, ‘que não são doutrina’, como gostam de ressaltar os
promotores deste afrouxamento, pouco a pouco se vai alterando a conduta e o
comportamento, até chegarmos a um ponto em que não há mais diferença entre o
mundo e os que cristãos se dizem ser.”
O artigo alerta que, em vez de
promover a retirada das pessoas do mundo para o reino de Deus, há uma
verdadeira entrega dos ambientes consagrados à adoração ao Senhor para o mundo.
“Os templos
passam a ser simplesmente ‘casas de shows’, ‘clubes sociais’, totalmente
irrelevantes para a missão que se lhes deu o Senhor Jesus.”
O pastor Ciro Sanches Zibordi é
citado para lembrar que o adjetivo “extravagante” não pode combinar com a
adoração, pois extravagância significa “esquisitice, estroinice, dissipação,
libertinagem”.
Institucionalismo: as convenções como “prefeituras”
O último fator apontado é
o institucionalismo — o fomento de disputas por espaço e poder
que transformou algumas convenções em “verdadeiras prefeituras”.
“Num
ambiente onde predomina o secularismo, o consumismo e o afrouxamento ético e
doutrinário, tem-se que há a proliferação das chamadas ‘obras da carne’… A
carne, ou seja, a natureza pecaminosa do homem, produz diversas obras, entre as
quais, as inimizades, porfias, iras, emulações, pelejas e dissensões.”
O resultado são disputas
pelo poder, pela liderança e a criação de uma “burocracia” e
“politicagem” eclesiásticas que, como disse José Gonçalves, “não têm
nada a dever com o que estamos acostumados a observar na disputa pelo poder
político na sociedade” .
O artigo faz ainda uma crítica
ao modelo de “ministérios” que caracteriza as Assembleias de Deus:
“A própria
história das Assembleias de Deus no Brasil gerou uma certa ‘desorganização
administrativa’, com a adoção de um sistema misto de governo, onde se
amalgamaram elementos dos três sistemas existentes (episcopalismo,
presbiterianismo e congregacionalismo), o que fez com que a base do governo
fossem os ‘ministérios’ que sempre estão centrados na figura de uma liderança
pessoal, o que realçou o culto à personalidade e a predominância de lideranças
carismáticas.”
O inimigo e as falsas saídas
O inimigo, segundo o artigo,
aproveita-se deste cenário para alardear entre a membresia heresias como
o “desigrejamento” , o “movimento celular” e
outras falsas doutrinas que atacam a existência de estruturas eclesiásticas.
“Entretanto,
a existência de uma estrutura na qual possa se desenvolver a Igreja é algo
necessário e bíblico, pois não é possível um corpo sem que seus membros estejam
devidamente ordenados, com os devidos órgãos, tecidos, medulas e juntas.”
A solução, portanto, não é
abandonar as instituições, mas abandonar o institucionalismo.
O alerta final
O artigo conclui com um chamado
à volta à essência pentecostal:
“A igreja
local, a denominação eclesiástica passa a ser um mero grupo social, sem função,
com crise de identidade e que, assim, pode ser manipulado pelos vários
interesses que passam a prevalecer, até que venha a desaparecer completamente
enquanto tal, já que passa a não ter qualquer relevância na sociedade e a não
mais ter qualquer relação com Deus, morrendo enquanto instituição.”
A análise do pastor José
Gonçalves, desenvolvida por Caramuru Afonso, serve como um alerta
profético para a igreja brasileira. O diagnóstico é severo, mas o
remédio é conhecido: retornar à simplicidade do evangelho, à dependência do
Espírito Santo, à santidade e ao compromisso com a missão.
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